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Markus Popp, a mente criativa por trás da glitch de Oval

Oval é Markus Popp, produtor radicado em Berlim e um dos pioneiros da ‘glitch music’, tendo editado, na década de 90, álbuns seminais como ‘Systemisch’ ou ‘94 Diskont’. Depois de um interregno entre 2001 e 2010, ano em que voltou as edições com ‘O’, uma radical desconstrução do estilo que o tornou popular nos círculos da electrónica mais abstracta, eis que Oval de novo nos brinda com uma edição de luxo, desta feita uma compilação dos seus trabalhos, com faixas ‘perdidas’ de várias fases da sua carreira.
Mais interessante ainda, acompanha esta edição de “Oval DNA” um DVD com um software open source destinado a músicos e produtores, e um arquivo de mais de 2000 sons que Oval utiliza. Desta forma, Markus está a oferecer aos ouvintes a opção de reconfigurar a sua obra e descobrir a composição musical de acordo com os seus processos. Fascinante.

Recentemente, sentamo-nos a conversa com Markus e descobrimos um produtor inteligente, capaz de articular de forma cristalina o método subjacente à sua música.

MSCMTR: Lemos que “Oval DNA” é uma edição destinada a fechar o capítulo sobre a primeira fase de Oval. Isto é correcto – existe um esforço consciente de te distanciares da tua abordagem conceptual e teórica para uma abordagem mais musical?

Oval: Sim, sim, exactamente. A ideia com “O” foi a de criar algo completamente novo e inesperado. Para fazer isso, significava comunicar na linguagem musical muito mais do que anteriormente. Antes eu estava mais focado noutras questões – em não me assumir como um músico ou um compositor. Dito isto, é fácil falar mas mais difícil fazer. “Oval DNA” deveria ter saído mais cedo. “O” não deveria ter saído sob o nome Oval, mas agora que saiu, sinto que alargou as oportunidades que me são apresentadas em termos do meu estilo e abordagem. Estou bastante ocupado em criar material de qualidade. E em certificar-me que corresponde ás minhas próprias expectativas. Diria que sou bastante bom naquilo que faço melhor, mas não sou um produtor muito diverso. Não seria capaz de criar um remix dubstep da minha própria música, por exemplo.

M: É interessante que não te encares como um produtor de música tradicional, e no entanto, trabalhaste com várias pessoas e bandas ao longo da tua carreira. O álbum “So”, o álbum de Microstoria e as criações com Tortoise e Jim O’ Rourke…

O: Jogo bastante bem em equipa. Trabalho sozinho neste projecto mas sou rápido a decidir e ironicamente, trabalho muito mais rapidamente com outras pessoas do que sozinho.
Cada um dos projectos que mencionas tem uma concepção diferente portanto é difícil generalizar, mas em todos eles, havia uma contribuição que eu podia fazer, um certo papel que poderia desempenhar – de forma a que podia adicionar aquilo que era o meu “som assinatura” mas ao mesmo tempo, que iria além daquilo que faço normalmente.

M: Só recentemente decidiste utilizar instrumentos e inclui-los na tua arte sonora. Esta abordagem diferente estaria relacionada com a tua longa ausência das gravações (entre 2001 e 2010)?

O: Sim, totalmente. Foi a primeira vez em que peguei em música de verdade. Foi a primeira vez em que tentei utilizar o que apreendo da música enquanto ouvinte. A estrada para “O” foi um processo em 3 partes: escutar música, identificar peças ou estilos de que sempre gostei, depois identificar os instrumentos usados, mesmo em música completamente diferente daquela que eu faço e o passo número 3 foi a parte mais difícil: criar este música viva, que respire e seja feita sem esforço – que fale por si própria.

M: Recebeste educação musical formal?

O: De forma alguma. Não sou uma pessoa muito técnica e não sou uma pessoa muito musical. Com a tecnologia hoje em dia, a realização da música já não é um obstáculo tão grande. É uma questão de tempo, trabalho, talento. Crias o teu próprio treino, familiarizas-te com hardware/software, mas podes criar o teu próprio caminho – não é como se tivesses que passar por anos de educação formal. Felizmente estamos nesse ponto, em que ter uma ideia clara do tipo de música que queremos criar é um bom ponto de partida para criar o teu próprio tipo de música. Queria manter algum mistério – essencialmente gostaria de dizer que apenas usei a minha imaginação. Não há processadores de sinal customizados, sou apenas eu, a usar a minha imaginação para criar música. Dito isto, é um produto de alta tecnologia. Há muito mais tecnologia do que nos meus discos anteriores, mas tudo soa mais natural e espontâneo.

M: Quais foram as maiores influências nas tuas aventuras musicais?

O: Nenhuma da música que fiz nos anos 90 tinha pontos de referencia musicais, e isso, porque, na época, não queria ser apenas outro músico, era jogar o velho jogo pelas velhas regras, senti-me obrigado a trazer à tona outras preocupações, como o acesso à tecnologia ou problemas com o interface, em vez de ser outro tipo de estrela de Rock. A música que me agrada e até admiro, enquanto ouvinte, está de certa forma relacionada com a minha abordagem e de outra forma é completamente oposta. Estou essencialmente a tentar fazer um tributo a essa música, tocar a minha própria versão da minha música favorita, mas estou a utilizar meios que não são capazes de o fazer, de todo. Estou a tentar ser um miúdo de 17 anos que cria a sua própria banda de metalcore usando um laptop e controladores de hardware. Esta perspectiva mantém-me motivado para tentar atingir esse tipo de atmosfera e, ao mesmo tempo, não ser como qualquer destas bandas a que estou a tentar prestar tributo.

M: Lemos que não estás interessado em sintetizadores, isto mudou recentemente ou permanece?

O: Permanece. O paradigma de sintetizadores reflete uma certa ideia de som. Os aspectos em que estou interessado estão noutro campo, como o que significa processar e gerar som. Se gostas de um certo tipo de som ou estética talvez uses sintetizadores mas pessoalmente atrai-me mais usar samples e tocar instrumentos.

M: Quanto espaço há para improvisação e erro na tua música?

O: De momento, improvisação, sim; erro, tento minimizar. Tento arranjar cuidadosamente polaroids de som. Estou a fazer uma remistura de momento, e estou a pegar nos ficheiros originais um por um, e estou a tocar por cima do material até que tudo o que sobre seja a minha criação.
Erros e o “glitch” não estão ligados. O “glitch” foi um mal entendido. Estava a usar blocos de construção que a maior parte das pessoas não reconheceria como música. A minha abordagem era a oposta – tentei criar uma peça musical a partir de elementos não musicais, enquanto a maior parte das pessoas tenta pegar numa faixa de house e colocar “glitches” por cima.

M: E quão importante é Berlim para a tua música? Sentes que o contexto influenciou o teu trabalho?

O: Não sei, podíamos até falar do apartamento em que vivo, é uma influência muito maior para mim. Berlim é como é, uma cidade relativamente acessível, e eu como indivíduo, passo muito tempo em casa. Mas num grau muito maior, mudar de Mac para Windows em 2004 mudou completamente a forma como faço música. Era um utilizador de Macs quando eles custavam 10.000 dólares. Sempre fui um utilizador de Mac mas assim que o Mac OS X saiu não me senti bem e assim que mudei para PC nunca mais olhei para trás. É a caixa preta perfeita. Apenas tens que trazer tempo e compromisso, mas não há limites.

M: Qual é a proporção de sons sintetizados para sons samplados na tua música?

O: Creio que a distinção é obsoleta. Porque num ambiente como o Ableton, no decurso do processo o sinal é samplado e re-samplado, e depois podes transformar o audio em informação MIDI que pode alimentar outro processo MIDI com essa informação e no final será um ficheiro WAV, por isso para mim a distinção está obsoleta. É uma distinção importante, mas no meu processo em particular, não é importante.

M: E ferramentas generativas – qual foi a sua importância na música de Oval?

O: Desde 2007 a minha música é um pouco de tudo. É uma abordagem híbrida. Nunca usei ferramentas generativas no sentido de um patch de Max, mas hoje em dia é um pouco de tudo. Posso alimentar um módulo com informação e redirecioná-lo para outro módulo, por isso as linhas estão de certa forma, menos nítidas. O Ableton Live é, ele próprio, uma ferramenta generativa. Parece-me que a pergunta se refere ao uso de uma “arma secreta” – que não existe. Uso ferramentas que qualquer um pode comprar, em todas as fases do projecto.

M: Vimos o vídeo da Playground TV em que trabalhas com uma dançarina e, obviamente, o teu vídeo da música “Ah!” – do álbum “O” – demonstra um fascínio pela dança contemporânea. Claro que há uma ligação entre música e dança mas dado que a tua música poder ser caracterizada como mais cerebral do que física, como pensas que o teu interesse na dança influenciou o teu trabalho?

O: Acho que não influenciou – sou apenas eu a expandir-me para um campo de actuação diverso e a ser bastante entusiástico. De uma certa forma está a influenciar a forma como faço música para essa peça de dança, muda a minha música, mas não fundamentalmente. Foi apenas um primeiro teste. Talvez para a próxima a minha música mude com o conteúdo da peça de dança, mas para esta peça foi mais como uma edição do meu próprio material.

M: O objectivo é apresentar esta peça ao vivo?

O: Sim, mostramos esta peça em festivais de dança de tempos a tempos. A estreia foi há cerca de um ano e desde essa altura já a mostramos 4 vezes. Há tantas abordagens e tantas interpretações diferentes que é difícil dizer ao certo o que funciona. É um meio muito vasto, há tanto a passar-se e é tudo novo para mim. Neste tipo de colaboração sou um novato mas a recepção foi muito boa.

M: Gostas de tocar ao vivo?

O: Gosto, mas de momento sei que há uma falta de ligação entre a música de estúdio e o espectáculo, aquilo que acontece no palco. Mas este tipo de abordagem é bastante mais flexível do que tocar um instrumento ou tocar com outras pessoas ou mesmo com uma orquestra. Posso mudar tudo em tempo real.
Podia tocar outro instrumento como alguns “músicos de laptop” fazem, seria uma apresentação mais atraente, mas o que aconteceria é que tornaria mais claro de uma forma embaraçosa, que o que não estivesse a vir da minha guitarra, baixo ou bateria, seria playback. No futuro irei experimentar outro formato mas não sendo uma pessoa particularmente bem relacionada no mundo da música será difícil encontrar outras pessoas para tocarem comigo.

Esperamos que Markus supere essas dificuldades e continue a inovar e a empurrar a nova música electrónica para patamares ainda por alcançar. Certos que isso acontecerá, continuamos a desfrutar do seu trabalho, especialmente o novíssimo “Oval DNA” que recomendamos vivamente!